Interioridade debatida no programa “Portugal Hoje”

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“Um país partido em dois”, esta foi uma das frases utilizadas pelo presidente da Câmara de Bragança, Jorge Nunes, para descrever o Portugal de hoje, um país que vive duas realidades diferentes, de um lado o interior despovoado, economicamente débil, ostracizado e esquecido pelos sucessivos governos, do outro o litoral que concentra a população, a economia e o desenvolvimento.

A realidade não é nova mas a verdade é que apesar dos sucessivos diagnósticos, das reivindicações individuais ou colectivas, o interior continua a esvaziar-se, a não conseguir fixar a população, a não conseguir atrair investimentos, a não conseguir criar emprego. “Na última década o distrito perdeu mais de 12 mil pessoas”, sublinhou o presidente do Nerba, Eduardo Malhão, que, apesar de considerar que o país tem “uma dívida histórica com a região”, já nem pede “discriminação positiva, apenas igualdade de tratamento”. Fátima Campos Ferreira, a moderadora do debate, acrescentou que o distrito tem menos 500 mil habitantes do que em 1900. O problema é sempre o mesmo, os números, que ditam a extinção de serviços e a falta de investimento. Adriano Moreira, transmontano, insistiu que nas grandes lideranças históricas mundiais não constam que os governantes se gerissem “por estatísticas”, sublinhando que mais importantes que as estatísticas “são as pessoas”. Mas reconheceu que são esses números, altamente nefastos para o interior, que definem as políticas de governação do país”. O Bispo de Bragança-Miranda esteve também presente neste debate frisando a necessidade de “combater o individualismo”, a necessidade de união. Também Vera Cruz, professor de Direito, defendeu “uma voz reivindicativa”, a começar pelas mais pequenas coisas.

Vários elementos da plateia tiveram oportunidade de dar a sua opinião e, em diferentes momentos, foi chamado ao debate o tema da Regionalização. Jorge Nunes insiste que a região “não tem uma voz em Lisboa”, porque os seus legítimos representantes na Assembleia da República, acabam por obedecer às orientações partidárias, em vez de representar verdadeiramente os seus eleitos: “Precisamos de uma liderança regional devidamente legitimada”, defendeu. Júlio de Carvalho e Francisco Cepeda, ambos ex-governadores civis de Bragança, defenderam a criação de divisões administrativas, com autonomia financeira. “A Regionalização está consagrada na Constituição”, frisou Júlio de Carvalho. “É pena que a Regionalização tenha uma componente política e é por isso que não avança”, continuou Francisco Cepeda.

O debate decorreu no Teatro Municipal de Bragança, que encheu, sobretudo com empresários de toda a região. Estavam também presentes diversos presidentes de Câmara, mas o tempo correu sem que fosse possível dar voz a todos quantos gostariam de dar a sua opinião.

Mas nem tudo é mau, a região tem valor, tem potencial, tem património, cultura e tradições, tem uma identidade forte, que independentemente das políticas governamentais ou da falta delas, se tem mantido. E há quem reconheça esses valores. Um exemplo disso é a cantora Dulce Pontes, que há já algum tempo decidiu trocar a capital por Bragança e pelos vistos não se arrependeu: “Gosto de estar cá, fui muito bem recebida e espero permanecer por cá”, rematou.